sábado, 5 de dezembro de 2009




A Luta pela Cidadania Feminina


Muito se comenta sobre o avanço que a mulher tem conseguido, na luta pela sua emancipação, em nossa sociedade. Acompanhando a história, vemos que antigamente o seu papel ficava restrito às funções domésticas e a obediência ao marido. Hoje, em pleno século XXI, celebramos grandes conquistas que beneficiam não só a nossa vida, como também, a da humanidade.

Ao enveredarmos pelos séculos passados, vamos seguir a trajetória dessa personagem feminina, que durante muito tempo foi vista por uma sociedade patriarcal, apenas como um instrumento reprodutor e propriedade do marido. Na luta para adquirir o direito de instruir-se, votar, participar ativamente da vida socioeconômica e de ocupar postos governamentais, temos como referência pessoas como: Nísia Floresta, Bertha Lutz, Betty Friedan, Simone de Beauvoir, dentre outras, cujas ideias foram decisivas para fortalecer a luta pela cidadania da mulher.

Ao lembrarmos o fatídico oito de março de 1857, em Nova York – quando 129 operárias morreram queimadas por que ousaram reivindicar a redução da jornada de trabalho e o direito à licença-maternidade - devemos celebrar tantas vitórias quantas sejam necessárias para que, hoje, possamos dizer com orgulho: sim, nós podemos!

Podemos, neste século XXI, continuar a luta – iniciada por essas mulheres – por uma sociedade mais justa, onde direitos e deveres se equivalham no que diz respeito à igualdade salarial, ao acesso a cargos públicos, a uma maior participação na vida política do nosso país e, principalmente, na questão do constrangimento físico ou moral. Que a Lei Maria da Penha, um marco na luta contra a violência doméstica – nesta década - seja uma conquista que possibilite a abertura de novos horizontes na tão sonhada equiparação entre os direitos do sexo masculino e feminino, pois só dessa forma, caminharemos lado a lado, com respeito e admiração, não mais homens nem mulheres e sim, cidadãos.

Sendo assim, a emancipação feminina, fruto de uma longa caminhada no curso da história e uma luta permanente em busca da igualdade, será uma celebração que virá para atender a uma justiça social que se faz premente, uma vez que, como cidadã, nós contribuímos para o progresso socioeconômico e político da nação.

sábado, 21 de novembro de 2009




Afeto à La Carte


Se alguém nos pedisse a definição do amor em uma palavra, no sentido de encontro, aconchego e encanto, nós o convidaríamos a conhecer o lugar onde cores, sabores e cheiros se misturam para produzir o afeto à la carte: a cozinha.

Cozinhar é a forma mais simples e genuína de dizer: eu te amo. É a maneira artesanal de se distribuir carinho por meio dos alimentos. E nada melhor que aproveitar as cores dos artefatos, ingredientes e temperos diversos – que fazem parte desse ambiente - para criar aquela comida especial e homenagear a pessoa que amamos. É o amor entregue com açúcar e com afeto.

A essa altura, quem não lembra da cozinha de sua casa em tempos de festas: carnaval, páscoa, são joão, natal..., com seus ruídos, sons e cheiros reacendendo lembranças? Palco de tantas histórias engraçadas, de reuniões familiares acompanhadas de uma xícara de café e de um saboroso bolo de milho, macaxeira ou fubá. A cozinha reflete o calor, a ternura e a simplicidade de quem sabe receber com arte e carinho. É o afeto à la carte posto à mesa em sistema de gratuidade.

Nesse momento, vamos ao encontro da nossa memória afetiva e revemos cenas do mais puro amor: uma toalha de xadrez, pratos brancos sobre a mesa, um jarro com flores do campo, uma cesta de pães quentinhos, ovos mexidos, queijos, presuntos, bolos, biscoitos, tapiocas, sucos, leite e café; compõem o cenário de uma linda manhã de verão. Mais tarde, uma bela feijoada de frutos do mar, um feijão tropeiro, uma carne assada com macaxeira e manteiga de garrafa, uma boa moqueca de peixe, um baião de dois, virado à paulista, frango com quiabo e tantas opções quanto seja o desejo de agradar e fazer feliz a quem se ama. À noite, dispensando o luar e as estrelas, podemos jantar a luz de velas, sentindo o cheiro do café moído na hora, a velha canja de galinha a fumegar no prato, um cuscuz quentinho servido com queijo de manteiga e rodelas de inhame com sobras da carne assada do almoço. Tudo servido ao ponto: carinho, ternura, tempo e disposição de ver, ouvir e sentir o outro, na intimidade de um espaço, onde o riso solto, a alegria e a descontração, têm a difícil missão de adoçar o sal e o fel de cada dia.

Por tudo isso, sempre que alguém nos pede para falar sobre esse sentimento, lembramos da cozinha, ponto de encontro e encanto, espaço onde o festival de cores brinca de fazer inveja à beleza do arco-íris... Lugar para servirmos o amor com açúcar e com afeto.

sábado, 14 de novembro de 2009




Ah, se...


Um telefonema na noite, uma morte anunciada... Perplexos, nós nos indagamos: - “por que será que as pessoas não se acostumam com ela e de onde vem esse assombro, esse estranhamento, essa dor?”

- Culpa, parece a resposta plausível!

Vivemos a esquecer certas conjugações: amar e cuidar, por isso nos surpreendemos tanto quando na calada da noite ela – a morte - nos chega sorrateira e desfaz a nossa tola pretensão de que o relógio parou e que temos toda a eternidade para fazer o que urgia ser feito, aqui e agora.

Ah, se... Essa é a resposta que apresentamos quando a inexorabilidade do tempo nos confronta com os marcadores das horas e vemos que é tarde para falar de amor, amizade, saudade, ausência, solidariedade (...).

Ah, se...

quinta-feira, 5 de novembro de 2009



O Amor em Digitais


O tempo, construtor de sonhos, pulou a cerca das horas e modernizou o amor. Hoje, basta teclar www.solitarioprocura.com.br ao alcance das nossas mãos, podemos escolher com quem partilhar a nossa vida. É o amor na era digital.

Fruto do avanço tecnológico, o computador, essa ferramenta que encurta distâncias e transforma a rotina das pessoas, provocou uma verdadeira revolução na maneira como elas se relacionam. Basta uma tecla acionada e escolhemos o amor em digitais, que pode ser: louro, moreno, alto, baixo, gordo, magro, olhos azuis, castanhos...
Se antes o espaço geográfico era motivo de distanciamento entre os casais, agora, com apenas um toque, uma janela se abre e podemos visualizar e ouvir quem está do outro lado da tela, atenuando, assim, a solidão e a saudade tão comuns àqueles que mantêm relacionamentos à distância. Além disso, temos a vantagem de disfarçar por meio da economia de palavras, os erros do nosso português ruim, pois numa linguagem simbólica não virou naum, você virou vc e também virou tb.

Por outro lado, se hoje é possível dispormos desse instrumento para facilitar a comunicação e diminuir distâncias, é importante que façamos uma indagação: - “que afeto é esse feito de ausências e que sobrevive sem o cheiro, o tato e a emoção do olhar?” O amor, vivenciado dessa maneira, é a antítese daquele que guarda na pele o perfume, na boca o sabor do último beijo e no olhar, a intensidade da paixão. Longe dos sentidos perdemos o melhor da relação: o encontro, o brilho no olhar e a possibilidade de guardar num diário, não virtual, aquela rosa branca - lembrança de uma tarde de carinho - o papel do chocolate preferido e uma mecha de cabelo envolta, cuidadosamente, num laço de fita vermelha. Saudades perfumadas, indeléveis e tão antigas quanto aquele coração esculpido na árvore que, ainda hoje, conserva as nossas promessas... Um amor também em digitais, mas presente, que não possamos esquecer e ignorar ao simples toque da tecla “delete”.

Por tudo isso, só nos resta admitir o sucesso dessa conquista, fruto da modernidade, mas lamentar que o tempo que pulou a cerca das horas, não seja o mesmo que tingiu de sépia as páginas onde registramos a nossa história, porque lá, nas folhas perfumadas de um velho diário, vamos encontrar a vida real ao vivo e em cores, seus encontros e desencontros e um amor construído dia após dia.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009



A Cor do Brasil


O sistema de cotas para negros, nas universidades públicas brasileiras, nos coloca diante da realidade de um fato que há muito tentamos maquiar dando-lhe a feição de jeitinho brasileiro, ou seja, jogando para debaixo do tapete ou para escanteio, uma discussão que não nos obrigue a olhar de frente para o que evitamos assumir: somos uma nação racista e elitista e, por conseguinte, temos um sistema de educação excludente.

Defendemos a política de cotas porque é mais fácil do que reparar décadas e décadas de omissão, em relação aos direitos das minorias. Fingimos que não temos preconceito de raça e ignoramos a desigualdade social, presente também nas salas de aula, e assim vamos protelando “ad infinitum” as soluções que minimizem a distância entre brancos ricos, brancos pobres e negros de terem acesso à educação e à cultura em igualdade de condições. Proferimos, solenemente, um discurso a cada ano de eleição em favor dessas minorias e esquecemos de pô-lo em prática, tornando-o vazio e inaplicável. Por isso, para aliviar a nossa consciência e responder ao clamor dos excluídos, criamos um sistema de cotas e com esse ardil vamos adiando os investimentos necessários à educação de base, protelando ainda mais o sonho dos que esperam por uma justiça social que nunca chega, e obrigando-os a contentar-se com as sobras de um banquete para o qual nunca são convidados, apesar de habitarem a mesma casa.

Se pararmos para analisar a questão das cotas, veremos que, além de ser um fator de segregação, ela em nada contribui para que o aluno se integre ao ambiente acadêmico, uma vez que a própria exclusão já o diferencia e marginaliza, humilhando-o em sua dignidade. Ao ingressar na universidade pela política de cotas, o ser humano sente-se estigmatizado – aquele ali é cotista! – e aviltado em sua cidadania. Cobram-lhe esforço e dedicação dobrados pela oportunidade oferecida, e ainda são olhados de soslaio pelos seus pares numa clara alusão à sua condição social e a cor da sua pele.

Precisamos mudar isso e o movimento pela inserção de negros, na universidade, tem que continuar lutando por uma justiça social que abranja o direito que lhe outorga a carta magna desse país; de que todos são iguais perante a lei. E em sendo assim, que lhes devolvam a cidadania e o respeito, em igualdade de condições: verde, amarelo, azul e branco. A nossa cor... Brasil!

sábado, 3 de outubro de 2009



Com a Vida nas Mãos


O aborto continua a ser discutido em todas as camadas da nossa sociedade, provocando debates calorosos e acirramento nos ânimos, de quem é a favor ou contra esse tema tão controverso.

Muito se tem falado sobre o assunto e várias são as razões pelas quais se busca um consenso. Debate-se o direito das vítimas de estupro, das gestantes com gravidezes de risco de morte e, ainda, daquelas em que há possibilidade da criança nascer com grave deficiência. Os que defendem a legalização invocam pra si, entre outros argumentos, o direito de escolha baseado no princípio da liberdade, arrazoado esse que encontra eco em boa parte dos que levantam a bandeira do aborto, como um direito inalienável de se dispor do corpo como melhor lhe aprouver. Afirmam que, descriminalizá-lo é tirar da clandestinidade uma prática que tem provocado problemas de saúde e morte, de um incontável número de mulheres expostas a toda sorte de procedimentos malfeitos, quando realizados por pessoas que não têm habilidade nem conhecimento específico para tal prática.

Ainda que pesem todos esses argumentos, os que lutam contra essa ideia alegam aspectos legais, éticos, morais e religiosos para proibir a sua legalização. Debate-se, por exemplo, o direito da gestante sobre o feto e a partir de que momento ele pode ser considerado humano ou vivo (se na concepção, no nascimento ou em um ponto intermediário). Discute-se a dor pela qual passa o feto durante o procedimento e as conseqüências psicológicas na vida da mulher. Põe-se abaixo, ainda, o argumento de que uma criança indesejada teria sérios problemas no futuro, uma vez que não se pode medir o que seria bom ou ruim na vida dela, se lhe tiram o direito de escolha, entre a vida ou a morte. E além do mais, alegam a favor do seu discurso que a vida humana pertence a Deus.

Por todos esses aspectos, percebemos o quanto é difícil nos posicionar, tendo em vista que o tema ainda será motivo de intensos debates, a fim de que se encontre uma solução que passe pelo respeito à vida e a preservação dos direitos humanos, que tenha na liberdade o seu maior símbolo. Enquanto isso, só nos resta esperar que o bom senso prevaleça para que, no futuro, possamos decidir, livre e conscientemente, sobre matéria tão polêmica.

quinta-feira, 1 de outubro de 2009



Cárceres da Vida


Se eu pudesse fatiar o tempo e transformá-lo em pequenos pedaços, certamente construiria uma bela colcha de retalhos, feita das minhas lembranças e tecida ao som dos acordes que encantaram a minha vida. Dirão alguns: mais isso é saudosismo! E eu respondo, é sim senhor!

Sou cria das águas da chuva, dos córregos, das árvores, dos contos de fada, do atirei o pau no gato tô tô e do tempo em que a palavra saudade era sinônimo de bem viver. Tenho as raízes da minha infância fincadas no chão batido das boas recordações e por isso vivo imersa em lembranças que não me deixam esquecer as brincadeiras que, hoje, veem à tona pelas lentes do passado: bastava o céu escurecer e lá estava eu, sorriso aberto abraçando a chuva que lavava o corpo e banhava a alma sedenta, das águas de março. Fui moleca de subir em árvores, telhados, de jogar com bolas de gude, de brincar de amarelinha, de venda, bambolê, esconde-esconde, casinha e outras atividades lúdicas que deram um colorido intenso ao meu viver.

Saudade é sempre um tema recorrente quando nos deparamos com outra maneira de viver a idade da inocência e da alegria: são crianças trancafiadas em casa, encarceradas na solidão dos apartamentos, privadas do exercício das descobertas e algemadas junto ao televisor, sendo induzidas pelo consumo desenfreado numa vida cada vez mais faz de conta. São infâncias roubadas, em nome da conveniência de adultos hipnotizados pela cultura do ter e vítimas da cegueira de um tempo que esquece de dar tempo e sentido, ao que é viver (...).

Estou sempre a me questionar sobre o futuro dessas crianças adultas, isoladas e solitárias. Em que vãos se escondem as suas almas infantis e em que época de suas vidas poderão algum dia, resgatar à infância perdida? A resposta talvez esteja andando por aí, de mãos dadas com as drogas, o alcoolismo, o suicídio e também, na solidão dos cárceres da vida adulta.